Por Cláudia Miranda

Outro dia, ouvi no rádio o sambinha “Quando eu me chamar saudade” do Nélson Cavaquinho, cuja letra falava mais ou menos assim: “Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora. Me dê flores em vida, o carinho, a mão amiga, para aliviar os meus ais. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade”.  E então quis publicar esta pequena homenagem ao meu pai, neste jornal tão estimado por ele, pois sei que isso seria um dos melhores presentes a lhe dar, enquanto ele ainda não é uma saudade.

Se eu não tivesse nascido no mesmo mês do meu pai, se eu não tivesse nascido na sua cidade, ou até se eu não tivesse sido sua filha, ainda assim eu teria uma grande afinidade com ele. Nossa ligação transcende o tempo e o espaço, nos entendemos e nos respeitamos como se nos conhecêssemos desde sempre, como se fôssemos notas de um mesmo acorde: apesar de frequências diferentes, vibramos em harmonia. Mas, o destino aumentou muito mais a nossa ligação de almas, reforçando com essas coincidências astrológicas nossa profunda sintonia. Sou lagopratense como ele, e sei o quanto ele ama a cidade onde nasceu e que muito ajudou, por isso compartilho esse texto com nossos conterrâneos.

Ele viveu uma linda história de muitas realizações que foi registrada no livro “Otacílio – um político diferente”, escrito por Toninho Sampaio e Heleno Nunes e também no pequeno opúsculo que complementa o livro, com prefácio escrito por mim. Com um temperamento entusiasmado e cheio de idealismo, Otacílio marcou as pessoas com quem conviveu. Todos da nossa família aprenderam algo importante com ele.

Papai tem a mente lúcida, o pensamento lógico, filosófico, aberto, não preconceituoso, democrático, inclusivo, respeitador. Tem o coração amoroso, solidário e compassivo. Como bem observou meu marido, quando lhe fazemos alguma pergunta, devemos abrir os ouvidos para sua resposta precisa e concisa. De fato, ele pondera, procurando a palavra exata, antes de manifestar sua opinião. Evita ao máximo julgar, o bonito e o feio, ele sabe serem relativos. Mas sabe admirar a beleza genuína de uma poesia, de uma canção, de um conceito filosófico.

Quando papai adoeceu, aparentemente estava perdendo suas qualidades mais reconhecidas: a mobilidade, o dinamismo, o empreendedorismo. Mas, com o olhar aguçado para o interior, quem está mais próximo pôde observar o quanto ele cresceu como alma nos últimos tempos. A limitação imposta pela fatalidade do acidente vascular a que foi submetido e o sofrimento por ter que aceitar a nova condição fizeram com que ele passasse por uma profunda transformação. Do homem que gostava de ser ouvido, ele passou a ouvir; do homem que gostava de fazer e de dirigir, ele passou a deixar os outros fazerem por ele e a ser conduzido. De ativo, ele passou a receptivo. Seus ouvidos se apuraram. Seus valores se redimensionaram. Foi se tornando mais calmo, mais modesto e foi deixando seus sentimentos virem mais à tona. Antes, seus pensamentos e ações preponderavam, e agora os sentimentos aparecerem mais, porém conduzidos pela reflexão. Papai não reclama, pois sabe que não adianta. Ele valoriza cada vez mais a gratidão, principalmente por sua esposa, minha mãe, que a ele tem se dedicado com amor incondicional e às suas filhas e netos, minhas irmãs e sobrinhos.

Otacílio Miranda tem uma enorme força interior e uma grande capacidade de compreensão. Isso o fez superar obstáculos e o ajuda a fazer sua síntese, perdoando a si mesmo e aos outros, pelo grau de maturidade de cada um em cada época da vida. Ele sabe que sempre tentou e tenta fazer o melhor.  Por isso, canto em coro com uma multidão de amigos a nossa gratidão e amor pelo filho de Lagoa da Prata, Otacílio Miranda.

Leave a Reply