Um caminhão de foguetes

TS-horz

Foto Ilustrativa

Deviam ser onze horas, um pouco mais, um pouco menos. Eu acabara de me deitar, quando escutei os primeiros tiros. A princípio, pensei que fosse algum vizinho comemorando uma data festiva. Mas os estampidos não só aumentaram como se diversificaram. Eram tantos que me incomodaram. Resolvi sair à rua para ver de quem era a festa. Aí sim que a barulheira se tornou colossal. O céu adquiriu um tom esbranquiçado, embora fosse noite fechada. As nuvens brancas de fumaça pareciam rolos de algodão. E o barulho aumentava de intensidade e de forma.

Comecei a ficar assustado, querendo adivinhar de onde vinha a barulheira infernal. Na rua as pessoas corriam de um lado para o outro, sem saber o que estava acontecendo. Nessas alturas estávamos todos apreensivos, confusos, amedrontados.

Agora, à distância, no tempo, parece uma brincadeira, mas para quem viveu aqueles momentos era difícil avaliar o que acontecia, se era para ter medo ou não. E o povo corria esbaforido pelas ruas. Uns subiam, outros desciam. Ninguém sabia de quem correr e para onde.

Conversas as mais desencontradas ocorriam:

“É a Embaré. Estão explodindo as caldeiras, já nem sei quantas pessoas morreram.”

“Isso é guerra. Estamos sendo invadidos e os inimigos vêm do lado de Santo Antônio do Monte!”

“Mulher pega os meninos e vamos fugir para Luz, que é a cidade mais perto e está ao contrário de onde vem a barulheira.”

“É castigo de Deus! Eu bem que estava falando, fica esse povo nessa bobajada, pecando e blasfemando, taí o castigo.”

E o povo continuava na correria para baixo e para cima, e nada do barulho diminuir. O céu estava tão branco que parecia que o dia amanhecia. E os trovões, os tiros e os clarões se sucediam. A confusão já acontecia há mais de meia hora. Aí começamos a achar que a coisa era séria.

Era engraçado e, ao mesmo tempo, aterrador ver mulheres com cabelos despenteados, metidas em camisolas, às tontas, por vezes bonitas, por vezes terríveis, que tem gente que não se cuida para dormir. Já imaginaram uma senhora gorda, camisola solta, deixando ver por dentro, cabelos soltos e amarfanhados. Não imaginem, é constrangedor, para não dizer, trágico.

Homens de pijamas horrorosos, outros sem camisas, com barrigas indecentes, cuecas samba canção, suarentos, desgrenhados, chinelos de dedo. Foi uma coisa para não se lembrar. Imagens de filme de terror.

E o barulho, por ora se acalmava para depois recrudescer. Com o passar do tempo, foi diminuindo, até se transformar em uns tirinhos tímidos, quase imperceptíveis. Os clarões desapareceram e, de repente, a calmaria. A fumaça se esvaiu e acabou. Tudo era silêncio. Acabou a correria, o medo. As pessoas se recolheram a suas casas. Umas com vergonha do vexame dado, outras caladas, ainda sem entender nada. Todos aliviados, pois não sabiam há quanto tempo estavam sendo confrontados com os trovões, que pareciam não ter fim.

Os curiosos, sempre os há, foram atrás do acontecido. Vieram com a resposta tão esperada: um caminhão, carregado de fogos de artifício, que deveria sair para a viagem na manhã seguinte, pegou fogo, na porta da casa de seu dono, no caso, o famoso Zé Tem Base, oriundo de Moema, (tem base?) e que morava lá pelas bandas do Bairro Santa Helena.

Por se tratar de um bairro mais alto em relação ao resto da cidade, o espetáculo proporcionado pelo caminhão de fogos em chamas propiciou um espetáculo indescritível.

Esta é a história do caminhão de foguetes.

Entrou por uma porta, saiu pela outra. Quem quiser que conte outra.

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1 comment

  1. João Paulo

    Excelente artigo, curti mesmo.
    Posso usar como referência para um vídeo que estou gravando para a faculdade?