Outro dia eu estava pensando na história de Lagoa da Prata, nos acontecimentos recentes daqui e do Brasil. Fiquei imaginando o que as pessoas que se foram, se pudessem voltar, achariam da situação. Resolvi arriscar e ligar para o céu. Quem sabe, se eu desse sorte, poderia conversar com algum conterrâneo.

Me atendeu um anjo sonolento, ou um querubim, sei lá, pois nunca soube muito bem separar anjos de querubins e serafins. O fato é que me atendeu, para minha surpresa e perplexidade.

Perguntei sobre a turma de Lagoa da Prata e aprendi com o anjo que, no céu, as almas são separadas por região. O computador já chegou por lá e seria fácil descobrir onde estava meu povo.

Veio falar comigo o Zé Vital. Falava alto, espalhafatoso. Era o líder de todo o grupo. Disse que foi chegando por lá e lhe incumbiram de organizar a recepção dos que fossem aportando. Daí, deram-lhe outras missões, e outras. Quando viu, era o chefe geral. O Zé Vital sempre foi um líder, não seria diferente no céu.

Resolvi perguntar aleatoriamente sobre as pessoas de quem eu sentia falta e saudade, a começar por meus pais e irmã.

A Mamãe já tinha organizado um coral de serafins, compôs o Hino do Céu e dava aulas de música, instrumentos musicais e canto. Tem como colegas de ofício o Senhor Quito, o Celso Tabaca, o Sô Tinho, o Ari de Castro. Meu pai era o contador oficial de histórias. Como têm muito tempo por lá, pois ninguém trabalha, vive rodeado de gente querendo ouvir seus casos. É muito popular no céu. A minha irmã Marinha dá aulas de Inglês e Português, que chega por lá muita gente que não sabe bulhufas e, no céu, não é lugar de se falar em Lagoapratês.

Pedi que me chamassem o Silvério Rocha, que veio todo alegre perguntar pela Academia de Letras, contei-lhe as novidades e ele me disse que seu genro Júlio acabara de chegar. Dá aulas de História de Lagoa da Prata, numa cadeira que foi criada especialmente para ele, na Faculdade Celestial.

Como eu sei que ele conhecia todo mundo, quando por aqui habitava, pedi que mandasse abraços e lembranças para o Tõe Borges, para o João Macedo, para o Nenego, para a D. Zuleica, para a Elza do Posto, para o Chico Duvico, para a Dona Tereza e Seu Raimundo, para a Sônia Murilo, para o Luizinho Guadalupe, para o Átila Perillo. Quando eu falei no Átila, o Silvério sorriu me contou que ele montou uma agência de pescaria e que aderiu ao método pesque e solte, pois no céu ninguém tem o direito de matar nem uma barata.

Pedi que chamasse o Valdomiro, meu concunhado, que demorou a atender, pois andava muito devagar. Está tomando conta de uma fazenda e cuida do gado. Está feliz com a nova missão que lhe foi confiada. Falando em Valdomiro, lembrei-me do Waldomiro de Castro e, como uma coisa puxa outra, perguntei também pelo Seu Mirote. São comerciantes por lá.

Eu comecei a achar uma coisa interessante: nenhum deles me perguntou por alguém que por cá estivesse, parente, irmão, pai, amigo… Embora eu tentasse contar alguma coisa eles desviavam o assunto. Aí eu entendi que, quando mudam para o céu, eles cortam o contato e, como que, se esquecem das pessoas da terra. Percebi que as coisas estão certas assim mesmo. Já imaginaram se eles continuassem ligados a nós? Sofreriam com os nossos sofrimentos, se angustiariam com nossas angústias, se preocupariam com nossas preocupações. E lá é o céu, lugar pra ser feliz. De mais a mais, eles sabem que todos os parentes, mais dia, menos dia, irão para lá, aí se encontrarão e porão a prosa em dia.

Esses contatos com o céu não podem ser demorados, é uma regra que eles têm, e eu ainda precisava perguntar por muita gente, pois não sabia se teria outra oportunidade como essa. Pedi bênçãos ao Monsenhor Alfredo, mandei um abraço para o professor Afonso Goulart. Por incrível que pareça, falei até com o Monsenhor Otaviano, que me falou de sua ligação com Lagoa da Prata e trouxe o Padre Guarino, que foi meu vizinho, para me pôr a benção. Conversei com a Dona Tereza, com a Lourdes Dôco e com a Dona Chiquita Perillo, que na falta de pobres para cuidar, organizam saraus e chás de confraternização. O Janot Felisbino tem formado rodas de sinuca com o Grizu, com o Sinvalinho, o Bambu, o Bosquinho e o Sudário.

O Rui Amorim veio conversar e me contou que ele e o Dudu agora são grandes amigos e discutem amigavelmente sobre política, com a participação do João Bahia, do Dr. Carlos, do Virgínio Perillo, do Lucão, do Paulo Rodrigues, do Paulo Lobato, mais o Bento.

A ligação foi ficando ruim e entendi que estava na hora de desligar.

Faltou falar com tanta gente de quem eu tenho saudade…

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