Estava sentado meio de costas, falando o que lhe vinha à cabeça. Repetia essas sessões há tanto tempo que nem se lembrava mais como tudo começou. A princípio sentia medo, depois, pânico. Sim, foi aí que começou:

“noite passada eu acordei no meio da noite com um barulho. Depois houve um silêncio, mesmo assim eu fiquei preocupado. Teria sido um pesadelo ou aconteceu mesmo? Eu não iria acordar, sem mais nem menos, sem ter ouvido um barulho. E não era um barulhinho; era um estrondo. Fiquei ali quieto, esperando o barulho repetir-se. Nada. Eu nem me mexia na cama. E se tivesse alguém na casa? Se já estivesse dentro do meu quarto! Abri bem devagar os olhos e, na penumbra, não via nada de diferente. Comecei a escutar um barulho bem leve que parecia próximo da minha cama. Alguém estava debaixo dela. O que fazer? Levantar-me de um salto, acender a luz e olhar lá em baixo. Seria uma estupidez. Quem estivesse por lá seria muito mais rápido que eu. Certamente estaria armado. Quem entra em uma casa, num quarto, se coloca debaixo da cama, se não estiver armado? O jeito era esperar. O barulho era contínuo e regular. Parecia as batidos do meu coração. Quase não respirava para tentar entender. Com o tempo percebi que era o relógio de cabeceira. Continuei ali, quieto, sem me mexer, talvez por umas duas horas. O sono me venceu e acordei com o sol alto, batendo na minha cara”.

Ele era assim, misturava suas preocupações passadas com as presentes e nunca se sabia se o caso que contava acontecera na noite passada ou há vários anos. O doutor o ouvia em silêncio e anotava em um caderno.

“Eu tenho umas manias. Todo mundo sabe que eu não sou pão-duro, no entanto, não consigo jogar o restinho do sabonete fora. Eu o prego no novo. Também gosto de lamber o alumínio da lata de manteiga e corto a garrafa de detergente para aproveitar o restinho. O tubo de dentifrício eu o esfrego até o último resto de pasta. Viro o xampu de cabeça para baixo, para durar mais uma ou duas vezes. Encho a geladeira de sobras de comida, em vasilhas de plástico, que depois de velhas vão para o lixo; tenho constantemente umas duas ou três garrafas de refrigerantes abertas que ficam na geladeira até perderam o resto de gás para serem descartadas. Uso cuecas que estão se desmanchando, embora eu tenha um punhado de cuecas que nunca foram usadas. Por outro lado, distribuo dezenas de camisas usadas uma ou duas vezes somente. A casa está cheia de aparelhos que comprei não sei pra quê. Tenho sapatos que durariam até à minha morte e um monte de ternos que não servem para nada, pois uso apenas o preto”.

Vira-se desconfortavelmente na cadeira. E o doutor lá, com sua indefectível caderneta, seus óculos e sua caneta.

“Eu tenho o nariz muito bom. sinto cheiros que ninguém mais percebe. se alguém abre a geladeira, eu percebo imediatamente que tem alguma coisa estragada. Outro dia eu senti cheiro de cigarro. Eu acabara de me deitar e o cheiro veio redondinho no meu nariz. Fiquei assustado. Tinha alguém dentro de casa. Ora, eu moro sozinho e se tem cheiro de cigarro e eu não fumo, alguém que fuma está por perto. Não era aquele cheiro bom de cigarro aceso. Era aquele bodum de guimba de cigarro. Novamente entrei em pânico. Levantei-me discretamente e comecei a revistar todos os quartos, todos os cômodos. O cheiro era inconfundível. Esperava a qualquer momento ter que bater de frente com o intruso. Revirei tudo e não encontrei ninguém. O cheiro de cigarro ficou no meu nariz, até que eu dormi, já quase o dia amanhecendo”.

O doutor rabiscava distraído em seu caderno. Percebeu que era preciso trocar a medicação. Aumentar a dosagem.

“Eu me impressiono com meus esquecimentos. Eu me esqueço de tudo. Outro dia fiquei na fila do banco por mais de uma hora; quando chegou a minha vez, eu havia esquecido em casa o boleto que ia pagar. Saio e esqueço a chave, vou ao supermercado e esqueço a lista em casa, ligo para uma pessoa e, quando ela atende, não sei o que eu ia falar; recados nem é preciso me passar, pois não repasso nenhum. Às vezes chego a um cômodo da casa e me esqueço o que fui fazer lá; confiro se fechei uma porta uma porção de vezes, de vez em quando vou formular uma frase e me esqueço das palavras. Nome nem é preciso dizer. Esqueço todos. Às vezes até o nome de meus sobrinhos.

O doutor remexeu-se na poltrona, as hemorróidas o incomodavam e as costas doíam. “Preciso comprar outra cadeira, que esta está me matando”.

“Ontem acordei com uma pontada no peito e pensei: é hoje! Comecei a suar frio; a dor foi apertando, apertando e desceu para o estômago e depois para a barriga. Eu sozinho dentro de casa. O jeito era ligar para o hospital, ver se achava um médico. A dor apertou mais e não deu tempo de chegar ao banheiro. Descarreguei tudo por ali mesmo. E vomitei, vomitei, vomitei”.

“É, pensou o doutor, vou ter que trocar a medicação, aumentar a dosagem não adiantou”.

Leave a Reply