O lugar era pequenino, população estimada de duzentos habitantes, Santa Cruz da Serrinha era o subdistrito de um distrito. Ou seja era vice de coisa nenhuma. Vida parada, pouco assunto, nenhuma novidade. Os dias transcorriam monotonamente, com manhãs mornas, tardes escaldantes e noites solitárias, nos verões sem fim, e manhãs e noites enregelantes nos invernos.

Uma linda cachoeira, na entrada do lugarejo, dava ao local um ar de festa, não sentido pelos seus moradores. As crianças se esbaldavam na cachoeira e os jovens a tinham como a única diversão, naquele lugar esquecido por Deus.

A noite chegava cedo na Serrinha. O sol se escondia rapidamente por trás dos montes e a noite caía de uma vez. A escuridão chegava de repente e dominava tudo. Era um tal de acender velas, candeeiros, lampiões. E os barulhos da noite: latir de cachorros, bulício de grilos e sapos, cantoria de bichos noturnos, o choro triste da seriema e os lamentos do curiango.

O aparecimento repentino do desconhecido foi o acontecimento mais inusitado e importante dos últimos tempos.

Chegou procurando pouso, podia pagar. Acharam graça, quando ele procurou pensão. Quem iria se hospedar naquele fim de mundo? Ajeitaram uma casinha desabitada para ele. A dona havia morrido meses antes. Sem filhos ou descendentes, deixara uma casinha branca, limpa e arejada, que ninguém se interessou por ela. Ficar com a casa pra quê? Seria apenas mais uma amolação, visto que, financeiramente não valia nada.

Ele era o primeiro desconhecido a se mudar para a Serrinha, talvez nos últimos dez anos.

Por ser novidade, era bem vigiado, reparado, estudado, espiado. Barbas grandes, cabelos compridos, magro, alto, roupas extravagantes. Alguns o achavam parecido com a imagem de Jesus Cristo, outros ainda com a figura que faziam de Tiradentes. Calças xadrez, camisetas coloridas, coletes, botas brilhantes, muitas pulseiras, brinco, colares. Chamava atenção por onde passava. Saía cedo, embrenhava-se na mata de onde voltava com uma porção de ramos, galhos e folhas. Fazia compras na venda local, bebia uma ou outra pinga, conversa pouca, risos nenhuns.

Já fazia mais de mês que morava no local e ninguém se animara a perguntar-lhe o nome. Por falta de opção, passaram a chamá-lo Seu José, daí pra Zé foi um pulo. E como Zé tem muitos, virou Zé dos colares.

Arredio e reservado, não abria espaços para intimidades, para convites para almoço, para batizados e festas de igreja, que lá tinha uma, bem pequena, que era visitada vez por outra pelo pároco da cidade.

Certa ocasião, a mocinha mais bonita da Serrinha entristeceu. Era assim que chamavam a doença da tristeza, quando a pessoa se desinteressava da vida, amuava num canto, comia pouco, não conversava com ninguém. Algumas até se suicidavam.

Ouvindo a conversa na venda, Zé dos Colares disse que conhecia uma raiz que talvez desse jeito nos males da donzela. Acharam estranho que ele se interessasse por alguma conversa local. Na falta de opção aceitaram a ajuda do forasteiro.

Lá se foi ele para o mato e voltou com uns ramos, com os quais fez uma infusão e mandou que dessem para a moça. Parecia um milagre; as cores voltaram, a alegria também. Estava curada.

A partir daí passaram a respeitá-lo ainda mais. Quem sabe ele era um santo, ou um profeta?

Qualquer doença ele era chamado e vinha com seus chás milagrosos. Curava de tudo: espinhela caída, dor nas costas, difruço, andaço, mal do estamo, nó nas tripas, berne, bicheira e convulução.

Era a figura mais importante de Santa Cruz da Serrinha. Até o vigário, velhinho e com dificuldades para andar, viu melhoras depois do tratamento com Seu Zé dos Colares.

Tanta fama acabou extrapolando as fronteiras da Serrinha e chegou à sede do município. Filas começaram a se formar à porta da casa branquinha, transformando a vida dos moradores da pacata vila.

O distrito tomou ares de progresso, vendiam-se biscoitos, frutas, café. Depois passaram a comerciar refeições. Arrumaram uma casa de pouso e os mais afoitos forçavam a venda de ramos que nada tinham a ver com os que Seu Zé dos Colares usava em suas infusões e chás. Logo ele que nunca cobrara um centavo por seus remédios. O que fazia era aceitar uma galinha, uma dúzia de ovos, um cesto de frutas, até um cavalo com arreata.

Tanta fama atraiu autoridades e, de repente, a Polícia Federal. Andavam à procura de um cidadão, cujas referências faziam suspeitar que se tratasse da mesma pessoa. E era.

Só que Zé dos Colares, suspeitando da movimentação, fugiu à noite, no seu alazão, sem deixar rastros.

Santa Cruz da Serrinha voltou à sua monotonia, ao seu nada-que-fazer e às suas doenças. Acabaram-se os dias de trança-trança de gente, de novidades trazidas da sede, de namoricos com os moços e moças vindos da rua.

Tudo parado, tudo triste. Silêncio, murmúrios, e o triste lamento do curiango.

A Polícia Federal, já tão mal vista pelos moradores, ficou em situação pior, quando arrancou todos os ramos do santo remédio usado por Seu Zé dos colares. Arrancou o botou fogo em toda a produção de Cannabis Sativa, tão bem cuidada pelo santo homem.

Ainda bem que, lá no meio da mata, ficaram uns pezinhos do remédio que operava milagres.

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