Os fantasmas são uma instituição social.  Fazem parte de nossas vidas.  Temos necessidade deles quase como de respirar.  Existem aqueles que nos foram transmitidos e aqueles que criamos ao longo de nossas vidas.  Desde a mais tenra infância aprendemos a conviver com eles. Participam de nossa educação e, sem eles, talvez não fôssemos a sociedade organizada que somos.  “Menino, fica quieto, senão a cuca vem pegar!”  Que medo!

Mas, afinal, o que vem mesmo a ser a cuca?  Sei lá.  E sei que ninguém sabe.  Mas é bom ter medo da cuca. Se ela existe e, se nossos pais dizem que ela pode nos pegar, é bom acreditar e, por via das dúvidas… Tem também o tutu. O que será o Tutu, meu Deus do céu?  Tinha medo, embora o associasse àquela comida gostosa feita de feijão.  A mula sem cabeça, que soltava fogo pelas ventas, o saci pererê. O lobisomem… “Quem come carne crua, vira lobisomem”.

“Chupar manga com leite, mata”. Eu acho que não, porém não vou experimentar.  “Tomar banho depois do almoço dá congestão”. O que é mesmo congestão?  Será que um menino, ou menina de cinco, seis anos sabe o que é congestão?  Boa coisa não deve ser, caso contrário, não nos estariam alertando contra ela.

“Se você mastigar a hóstia, sai sangue!” Puxa!!! Como é que uma partícula feita de trigo e água pode dar sangue?  “Mastiga pra você ver”, diziam os colegas mais experientes.  Eu, hein? Não caio nessa e nem quero ficar com a boca cheia de sangue.

O capítulo dos pecados ocupa uma página especial na vida e nos fantasmas das crianças.  Tem pecado pra tudo e pra todos os gostos.  “Mentir é pecado, dizer palavrão é pecado, xingar é pecado, falar bobagem é pecado, não rezar é pecado, não ir à missa é pecado, fazer bobagem é pecado, brigar com o irmão é pecado, xingar a mãe é pecado… Houve um tempo em que eu pensava que ninguém ia escapar. Estava todo mundo condenado ao fogo eterno. Quando me acenaram com o Purgatório eu pensei cá com meus botões:  “Já está de bom tamanho, pelo menos temos uma chance”.

“No pé do arco-íris tem um pote cheio de ouro, mas se você passar por baixo dele, vira mulher”.  Eu não sabia que arco-íris tinha pé! De mais a mais, eu não estou querendo virar mulher, então, deixa o pote de ouro para quem não se importa.

“Comer banana na hora de deitar, mata”. Será? Eu não vou tentar, porque não estou com vontade de morrer.  “Andar de costas, a mãe morre!” Essa é brava! Nem tentar, que mãe é a coisa melhor que existe!

“Brincar com fogo de noite, faz xixi na cama”.  É por isso então que, de vez em quando, a cama de minha irmã amanhecia molhada.

E, pela vida afora, também vamos criando nossos fantasmas, que funcionam assim como um sinal de alerta, como uma forma de nos precaver contra as ciladas do destino.

“Vassoura atrás da porta, manda a visita embora”. “Sal grosso jogado sobre o ombro evita mau olhado”. “Três sinais da cruz seguidos dispensam o coisa-ruim”.  “Passar por debaixo da escada dá (toc toc toc) azar”. Aliás, antes de pronunciar ou escrever essa palavrinha, é bom prevenir-se, dando três toques na madeira.  “Cruzar com gato preto na esquina, toc toc toc”.

“Nunca deixe a sua maleta ou pasta no chão, assim você não ajunta dinheiro”. “Deixar o guarda-roupa com as portas abertas, não ajunta dinheiro”. “Deixar os sapatos virados, no armário, trás… toc toc toc”. “Não deixe o prato com restos de comida na geladeira, você nunca terá fartura”. “Quadros tortos na parede, desorganizam a sua vida”. Estes fantasmas certamente foram criados por zelosas donas de casa.

“Entrar numa casa por uma porta e sair por outra, você deixa a sua sorte naquela casa”.  No caso de você ter pouca ou nenhuma sorte, é bom descumprir este preceito.

E tem o medo da escuridão, dos barulhos da noite, das dores no peito, da morte dos parentes, dos desastres, de passar perto do cemitério…

Fantasmas… Fantasmas.

Como teria sido a nossa educação se não fossem eles?

Eu não acredito, mas que eles existem, existem.

Leave a Reply