MULHERES

A NEGRA

Ela era negra, baixinha, jovem, quase menina. Seu nome: Ercília. Trabalhava em nossa casa. Era uma mocinha doce e tímida. Ao se crismar, convidou-nos para padrinhos.

Seu pai um homem austero e bravo. Cara fechada. Nenhum sorriso. Homem de criação antiga, para quem a honra e a palavra empenhada estavam acima de tudo. Era exacerbado em suas convicções e beirava à tirania.

Tinha outras irmãs e irmãos. Todos viviam sob o jugo daquele homem impermeável. Uma das irmãs, de nome Marília, era alegre e extrovertida. O contrário de sua irmã Ercília, tímida e quase muda.

Acontece que Marília ficou grávida. Sem coragem para contar para a família, especialmente para o pai, foi levando a gravidez, cheia de sustos e dissabores. Quando já não dava mais para esconder e, com pavor da reação do pai, atirou-se no Rio São Francisco. Ninguém jamais encontrou o seu corpo. Para o fundo das águas foram-se duas vidas, perdidas pelo medo que se instalara na casa daquele homem terrível.

Ercília cresceu, afastou-se de nós e casou-se com o primeiro que apareceu. Qualquer coisa que a tirasse daquela casa cheia de medos e ameaças, servia.

O marido revelou-se outro tirano, com um defeito maior: a bebida. Instalou-se na família recém-formada o costume da surra, dos maus tratos, das ameaças e das imprecações e calúnias. A desculpa era o ciúme. Logo dela! Tão doce, tão tímida e tão fiel!

Ercília também começou a beber. Era a única saída que encontrou para enfrentar tantas desventuras. Ficou grávida. Teve a primeira filha e depois outra e, ainda outra. As meninas cresceram depressa. Aos doze anos a mais velha também estava grávida. A essa altura, Ercília pouca notícia dava de sua casa e da própria existência.

Soubemos que morrera em uma tarde chuvosa, quando foi encontrada, caída em uma poça de lama perto de sua casa.

Somente tivemos notícia do infortúnio, muitas semanas depois. Quando procuramos a família para uma visita de pêsames, encontramos, em uma casa suja e malcheirosa o marido bêbado e uma criança aos berros. Talvez de fome.

 

A LOURA

Ela vivia na janela. Linda. Loura. Diáfana. Sonhava com o príncipe encantado que viria arrebatá-la, como em um conto de M. Dely.

Professora primária, estudara em escola normal, em regime de internato. Aprendera boas maneiras, bordado, piano, artes culinárias, francês, além de todas as matérias do curso normal. Estava apta a ser uma boa professora e, mais ainda, uma boa esposa.

O sonhado príncipe chegou à sua casa, montado em um cavalo, como nos seus melhores sonhos. Viera conversar com o seu pai sobre uma partida de gado, adquirida na véspera.

Foi paixão à primeira vista. Alto, forte, elegante e bem vestido, o rapaz irradiava simpatia e força.

Não reparara nela, preocupado que estava em se desincumbir com eficiência da tarefa que lhe impusera o pai, na compra do gado. Instalou-se na sala, conversou, bebeu café com biscoitos, oferecidos pela mãe e foi embora.

Ela ficou a sonhar com aquele moço bonito. Ficava horas à janela da casa, na esperança de vê-lo. Aferrou-se à leitura de romances e, em cada protagonista, via a figura esbelta de sua paixão.

Outros negócios foram feitos. Finalmente o rapaz reparara nela. A princípio, com certa timidez, em seguida, encorajado pelo olhar aconchegante da moça, aproximou-se.

O casamento aconteceu pouco depois.

Após a festa, o noivo levou-a para a fazenda. No começo tudo era novidade: A casa da fazenda, o entardecer, os barulhos da noite, o cheiro do curral, a lida na cozinha, o mugir do gado. Com o tempo, a monotonia tomou conta de seus dias. O marido ia constantemente à cidade, onde ficava vários dias. Trazia-lhe livros, que eram devorados em poucas horas. Parou de trazê-los e passou a nutrir um profundo ciúme pelos personagens das histórias. Não permitia que ela fosse visitar os pais e passou a vigiar os seus passos com medo de uma traição com algum de seus camaradas.

A tristeza tomou conta da jovem que passou a cismar e a conversar sozinha, visto que não tinha com quem falar. Com a morte dos pais, que ficou sabendo muito depois, foi piorando, piorando. Parou de comer, emudeceu.

Quando o marido chegou a perceber a situação, a esposa já se encontrava em uma fase irreversível de loucura, pela solidão.

Levou-a para a cidade, instalou-a em um sobrado perto da Matriz, contratou-­lhe uma criada que era um pouco de tudo: arrumadeira, enfermeira, cozinheira. Gostava da patroa, triste e muda.

Debruçada na janela, até a bem pouco tempo podia ser vista: com os vestígios da antiga beleza somados aos sinais de demência.

O marido visitava-a a princípio. Depois parou de ir. Já estava com outra.

Pelo menos teve a dignidade de pagar as despesas até o fim.

Mulheres! Triste sina de muitas!

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