Há solidões aqui

Acordei com um pequeno solavanco do carro. A viagem corria tranquila e conversavam à minha volta. O som vindo de diversas vozes ajudava a embalar o sono. Reparei no jovem que dirigia o veículo. Conversava de forma grave. Sério, prestava atenção à estrada. Mais atento, vi que não era tão jovem assim. Vi também que conversava com propriedade e demonstrava um conhecimento das coisas de que eu não suspeitava que tivesse.

 

Em que ponto da estrada ele cresceu? Dirigia sereno como se toda a vida fizesse aquilo. No entanto, pouco antes de eu cochilar ele era um menino que disputava com os irmãos o chiqueirinho do meu fusca.

 

Reparando bem o carro também crescera. Deixara de ser o minúsculo veículo em que nos acotovelávamos. Era agora um carro grande e impessoal. Acabara, como de repente, a ingenuidade pequena e simples do fusquinha. Em seu lugar a carruagem sem graça e poesia. Eu mesmo envelheci durante o trajeto. Como as coisas aconteceram assim tão de repente? Foi só eu dar um cochilo e tudo mudou. Quanta coisa eu perdi durante o percurso?

 

Eu me recrimino agora. Eu não devia ter dormido, mesmo que fosse por um breve instante, pois foi justamente nesse átimo que tudo mudou, tudo cresceu.

 

O carro corria e o assunto era animado. Entendi que eu não devia participar, pois falavam de coisas que somente eles entendiam. Calado observava cada viajante. Ao lado do motorista outro jovem. Falavam de futebol e de jogadores de que eu nunca ouvira falar. Certamente de times europeus. Havia frases inteiras em inglês. E eu que não sabia que os meus meninos falavam aquela língua! Ao meu lado, no banco trás, uma bela senhora de olhos azuis entrava na conversa, quando esta saía do futebol. Espera aí! Não era essa senhorinha que estava brigando pelo chiqueirinho do fusca? como pode ter crescido tanto, assim tão de repente?

 

Quando foi que eu passei para o banco de trás e me tiraram o direito de dirigir o meu próprio carro?

 

Definitivamente eu estava confuso. E aquele casal de crianças que também viajava conosco? Esses sim, brigavam mas não era pelo lugar no carro. Brigavam pelo direito de assistir a um filme. Cada um queria um, e a bela e jovem senhora teve que interferir para apaziguar a confusão que se formava. Era muita gente para um carro só, por isso ele era tão grande, por isso aquela banheira.

 

Ah! O fusquinha!

 

Acho que vou voltar a dormir para ver se as coisas retornam ao seu lugar.

 

Quero o meu fusca, quero os meus meninos brigando pelo chiqueirinho, quero a minha juventude!

 

Quero dormir de novo, pois sei que quando acordar…

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