O dia estava quente e, na sala do delegado, mais quente ainda. O cômodo era pequeno, entulhado de móveis, gavetas, escrivaninhas, armários e arquivos. O delegado, com seu bigodão, sentado desconfortavelmente numa cadeira que rangia cada vez que girava seu corpanzil, sacou um lenço encardido do bolso e limpou pela milésima vez o suor da testa e do pescoço. De pé, à sua frente os três rapazes desconfiados e temerosos do que iria lhes acontecer, olhavam para aquele homenzarrão que poderia derreter-se a qualquer momento. O homem olhou-os de alto a baixo, tornou a conferir já com cara mais amistosa e ficou em silêncio. O calor insuportável fez com que se mexessem trocando de pernas, descansando ora sobre uma, ora sobre outra. O delegado ordenou ao ajudante que ligasse os dois ventiladores, que serviram para espalhar o ar quente por todo o ambiente.
– Muito bem, quem quer falar?
O que parecia ser o mais velho dos três adiantou-se e perguntou:
– Posso principiar do começo?
– Deve!
Então com licença, senhor delegado: Eu mais meu irmão Donizete veio pra cidade. Uma vez por mês nós vem pra cidade mode adivertir. Nós trabalha muito e só folga uma vez cada trinta dia. Nós chega e deixa os cavalo da casa da madrinha Santinha, que é irmã da minha mãe. Pra não ficar parecendo roceiro, nós desembainha as calça, limpa as botina, tira o chapéu e penteia os cabelo. Conde cheguemo na rua grande, passava a porcissão de Nossa Senhora Aparecida. Eu mais meu irmão Donizete é devoto da santa e entremo numa fila. Era aquela cantoria mais bonita e a fila andando bem devagar, debaixo do calorão. De repente começou aquele tantão de foguete, aquele rolo, aquela latomia. Eu mais meu irmão Donizete não gosta de barulho. Acostumamo na roça, naquele soturno, naquele paradeiro.
Conde passemo pro passeio, mode esconder do calor, vimo uma porta meio aberta. Era um bar. Eu mais meu irmão Donizete, conde vem a cidade gosta de beber cerveja e uma cachacinha, que é pra espantar o bicho. Entremo devagar, sentemo numa mesa e comecemo a beber, sem incomodar ninguém. Eu mais meu irmão Donizete tem um defeito: conde nós vê bebida, nós sai do sério, isquece a religião e nós nem num cumunga.  Tinha lá uns rapaz que começaro a mexer com a gente, chamando nós de comê-leite, se engraçando com a gente. Fiquemo calado, eles era em quatro e nós só dois. Foi aí que chegou meu primo Deusdete.
O delegado estava gostando, divertindo-se por dentro e dando corda ao contador da história.
-Vamos, vamos, continue – disse o delegado.
Assim que o Deusdete chegou, nós ficou mais alegre, mais animado.  Nós três dava pra enfrentar aqueles janota. Esperemo com paciência o meu primo Deusdete beber uma ou duas pinga, mode ficar menos reservoso e levantar a coragem. E os rapaz ali, só azedando.
Conde efé minha paciência minguou, eu alevantei, cheguei na mesa dos desinfeliz e falei na maior inducação: olha, nós tá bebendo cerveja quieto e não quer briga. Nós não é daqui e não conhecemo oceis. Assim é melhor para todos cada um ficar no seu canto. Um daqueles rapaz que parecia que era o que mandava nos outro disse:
– Nós não gosta de roceiro, comedor-de-leite. Se oceis quer beber cerveja, compra logo umas duas ou três garrafa e vai embora. Se ficar aqui é porque quer briga.
– Nessas altura eu já tavo enfezado, com a cabeça meio zonza dos gole. Enfiei o pé na mesa deles. Vuou garrafa, copo, forro de mesa, cadeira, palitero, salero… Um deles caiu e eu aproveitei e enfiei o pé nele. Aí os outros veio. Meu irmão Donizete mais meu primo Deusdete entrou na briga. Nós três era mais forte que os quatro e enfiemo a mão na cara deles. Conde um ou dois já tavo arrebentado, eles sairo correndo pro hospital e disse que ia buscá mais amigo. Nós que não é besta saimo também, conde fomo preso pela polícia e trazido pra cá.
O delegado virou-se para os outros:
-Qual de vocês quer acrescentar mais detalhe.
-Tem mais nada não, disse o Donizete.
Como o delegado olhou para o outro, este se apressou em falar:
-Não, senhor Delegado, é só isso. Nós pede desculpa. Nós não queria briga. Nós só defendeu – acrescentou o Deusdete.
O delegado fingiu escrever alguma coisa numa folha de papel. Anotou, rabiscou, tornou a anotar. Virou a folha, chamou um detetive e disse:
-Solta os rapazes. Deixa-os irem embora.
Quando o detetive ia saindo e delegado emendou. Chame uns dois ou três soldados e prenda aqueles quatro. Há muito tempo estou de olho neles.
O detetive ainda quis argumentar: -Mas, doutor, dois deles estão no hospital!
Então prenda os outros dois. “Conde” os outros saírem do hospital, prenda-os também!

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